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belovesick:
Coca-cola, formigas atômicas e combo de pipoca.
Tava na fila do cinema quando vi um cara com blusa das formigas atômicas acenar pra mim. Olhei duas, três, cinco mil vezes pra ver se eu não tava delirando. Ele vinha na minha direção com os braços abertos e eu calculei a distância entre o elevador mais próximo e eu. Não dava tempo de correr. Também não dava tempo de cavar um buraco no piso do shopping e pular dentro.
― Ei, preta. ― Ele me deu um abraço estranho de uma só mão e eu meio que abracei a outra mão dele e… hãm, foi um desastre. Mas meu coração doeu quando eu ouvi essa voz e esse apelidinho que anos atrás, eram suficientes pra deixar meu dia mais feliz.
― O…hei… ã. ― Eu queria dizer “Hey, oi, e aí?”. Mas não conseguia pronunciar direito.
― Quanto tempo né.
― Pois é… ― Balancei a cabeça.
― É… e aí?
― Tudo nice.
― Então… anos, né?
― Pois é. Três ou quatro.
― Acho que é quatro.
Três anos, nove meses e quatro dias, querido.
― É…
― Arram…
― Pois é.
Passamos algum tempo nos olhando constrangedoramente. Lembrei do tempo que nós tínhamos assunto. Era natural como respirar. Passávamos umas boas três, quatro horas no telefone. O assunto nunca acabava e o silêncio também não era um incômodo, nós meio que nos entendíamos. E olha só pra gente agora. Procurei na minha cabeça algum assunto que poderia falar com ele, mas não vinha nada. Estava quase correndo pra longe quando…
― Uma amiga minha te viu um dia desses.
Meses e meses atrás, corrigi mentalmente.
― Dalila?
― Não, não. Você não conhece.
― Então como ela sabe quem sou eu?
Ok. Já posso correr. Deveria dizer “não, é que assim, você é meio que o cara que eu mais amei na vida e meio que eu ainda falo de você pra Deus e o mundo”? Não né.
― Quis dizer que você não deve se lembrar dela, enfim, esquece.
― E esse suco aí na tua mão?
Olhei pra baixo e notei realmente que eu estava segurando um copo de suco de laranja. Alguém, que eu não me lembrava agora quem era, tinha ido comprar pipoca pra gente também, eu acho.
― É um suco.
― Tá brincando que é um suco? ― Ele ironizou. ― Tô querendo saber, é, cadê tua coca cola?
― Ah, sim, sim. Não tomo mais, sabe. ― Era minha deixa. Ensaiei falar isso faz anos. ― Mudei muito.
― Tu? Mudou? Tu? Parou de tomar coca? Ta beleza, eu acredito.
― Não ta vendo o suco na minha mão? Parei de tomar coca.
― Não parou não.
― Parei. ― Queria jogar o suco na cara dele ― Isso aqui é suco.
― Mas continua querendo tomar coca.
― Isso não significa nada.
― Claro que significa. ― Ele sorriu ― Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda. Tu sempre vai desejar uma coca gelada que rasga a garganta. Pega logo uma coca.
Verdade. Quase pude sentir o gosto enquanto ele dizia isso. Como eu queria coca-cola. Quase dois anos que eu não tomo e eu nunca deixei de querer tomar.
Mas enfim, o que tem haver?
― Que bom que só querer não dá celulite né? ― Sorri.
― Você seria linda de qualquer forma. Com ou sem celulite. ― Ele falou em um tom mais baixo e mais intenso, e eu tive um ataque cardíaco, pelo menos era o que eu sentia. Olhei pros lados disfarçando a timidez.
― E os caras? ― Ele perguntou quando teve a certeza de que eu não iria mais responder.
― Que caras?
― Os caras, né.
― Hãm?
― Namorados, preta, namorados, problemas, paqueras, etc.
Ah sim. Isso me lembrou que tinha alguém comprando pipoca em algum lugar desse shopping. Olhei de relance pra ver se encontrava, mas aparentemente não estava em nenhum canto. Ou era culpa minha, que só conseguia ver o cara de camisa das formigas atômicas na minha frente.
― Tô namorando.
― Você? ― Ele levantou a sobrancelha.
Me senti um pouco ofendida com o tom de voz dele. ― Eu mesma.
Ele me fitou por algum tempo em silêncio.
― O que? ― Já tava sem paciência.
― É… ― ele pensou por mais alguns segundos ― Estranho, eu acho.
E eu entendi o que ele quis dizer. A gente só se conhecia como um sendo a pessoa do outro. Nós éramos o amor da vida um do outro, a alma gêmea, a metade da laranja e qualquer outro nome que dão pra isso. Era algo fora do contexto esse nosso encontro, a gente aqui, como dois conhecidos que não se vêem há anos. Como que a gente foi se perder assim? Como que nossas vidas que pareciam tão juntas e tão entrelaçadas e tão grudadas, inventaram de mudar de rumo? Eu me sentia até culpada, eu acho. Era tudo bonito demais e triste demais e apaixonado demais pra ter acabado.
― É.
― Ainda escreve?
(Escrevo. Tô escrevendo um texto sobre você nesse instante.)
― Não ― Menti. ― Não tenho mais tempo pra isso.
― Hum… Então você mudou.
― Mudei muito.
― Mentira sua ― Ele me olhou como uma criança implicante.
― Acredite no que quiser ― Retribui o olhar.
― Aposto que ainda conta os dias e as datas.
― Não mesmo. Nem me lembrava mais disso. Aliás, que dia é hoje?
― Quanto tempo pro teu aniversário?
― Que?
― Quanto tempo falta. Para o teu. Aniversário. ― Ele falou pausadamente.
Engoli seco. ― Eu sei lá.
― Eu sei que você tá contando.
― O que? Eu mesm…
― Anda.
― Não sei.
― Diz.
― Não dig…
― Agora.
O encarei por alguns segundos até suspirar pesadamente.
― Três meses e quatro dias.
― Aniversário da tua cachorra.
― Sete meses e… seis dias. 12 de dezembro. Aniversário de Belo Horizonte. Dia da morte do José de Alencar. Aniversário do Silvio Santos também.
― Viu, eu disse.
― Grande coisa. Todo mundo tem uma mania.
― Grande coisa. Você não mudou nada.
― Cortei o cabelo.
― Não mudou a cor.
― Não assisto mais novela.
― Continua achando que a vida é uma novela mexicana.
― Não como mais miojo.
― Ainda odeia usar garfo pra cortar a carne.
― Tá. Tá. Eu entendi. Não mudei. Você venceu. Agora, pra quê tudo isso?
― Pra me certificar.
― De que?
Ele olhou pro lado e suspirou. ― De nada. De nada. Ei… tem um cara parado ali feito um bobo, acho que ele ta procurando alguém.
Segui o seu olhar e avistei um cara com um combo de pipoca na mão.
De alguma forma ele sabia quem esse cara é. Estranho.
― É meu namorado. Eu… eu tenho que…
― Tem que ir. ― Ele balançou a cabeça positivamente.
Droga. Porque é tão difícil ir embora?
― Então, até um dia.
― Até ― Ele pegou minha mão e deu um beijo, então deu um meio sorriso e foi se afastando.
Mordi o lábio enquanto o vi partindo ― já o vira partir tantas outras vezes. A gente nunca acha que um dia vai acabar. A gente sempre acha que vai ter mais, algum dia, alguma vez. Até que acaba. Até que o máximo de proximidade entre vocês seja apenas encontrar um ao outro na fila de um cinema. E não há nada mais triste que isso de seguir em frente. Não há nada pior do que desvencilhar sua vida da de outra pessoa. E mesmo com tudo, é como se não existisse realmente um fim, mesmo depois de ter tido um fim…
― Espera!
Ele se virou pra mim com surpresa em seus olhos ― O que?
― Você!
― Eu…
― Você é minha coca-cola.
― Eu sou o quê?
― Minha coca-cola. ― Ele vinha se aproximando e eu fechei os olhos, tentando me lembrar das palavras dele anteriormente. ― “Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda.”
― E o que isso significa?
― Você sempre vai estar aqui, mesmo não estando.
Ele deu um sorriso triste, e pelo seus olhos, vi que o meu também era. Ele colocou uma mecha do meu cabelo para de trás da minha orelha e suspirou.
― Você sempre vai ser a minha coca-cola, também.
― Até mais então.
― Até um dia, preta.
Cada um seguiu em frente novamente ― e literalmente. Fui encontrar o cara com o combo de pipoca, mas não pude deixar de olhar pra trás e ver, por mais uma ― e talvez última ― vez, o cara com a camisa das formigas atômicas.
Acho que vou tomar coca-cola hoje. (Iolanda Valentim)
"Ele: Ontem eu te vi de mãos dadas com outro cara. Ele era.. da hora. Mas ele segurava nas suas mãos de maneira errada e ele te deixou andar do lado de fora da calçada. Olha, eu sei que terminei com você falando que queria curtir. E curti, curti muita fossa, muito choro e muita gente falando que eu era idiota. Eu podia ter feito você tão feliz. Eu deveria ter sujado sua boca com o sorvete, eu deveria ter pego você no colo e te jogado na areia da praia. Lembra quando você cortou o cabelo e eu não falei nada? Eu deveria ter falado que aquele corte te deixou mais linda, que quando o vento batia nos seus cabelos e você olhava para baixo eu tinha certeza de que queria ficar com você pra sempre. Eu não to mentindo, tentei por vezes criar coragem e vir até aqui. Me chama, vai, me chama de burro. Me chama de burro por não ter visto que seu sorriso era o mais lindo do mundo, por não ter visto a curva dos seus cílios quase tocando nas suas sobrancelhas. Me bate, vai. Me bate por ter feito você chorar. Vai, me bate. Por favor. Me faz lembrar que você adorava chocolate branco e eu só te comprava preto. Briga comigo por eu nunca ter usado a camiseta que você me deu, briga. Eu deveria ter segurado sua mão com força. Eu deveria ter beijado sua testa enquanto podia. Eu deveria ter aberto a porta do carro pra você. Todas as tardes que eu joguei videogame, eu deveria ter deixado tudo de lado e ter ido te ver sorrir. Aquele seu vestido azul, você sempre usava porque combinava com a cor dos meus olhos não é? E eu nunca percebi. Eu nunca percebi o jeito que você mexia os dedos um de cada vez e que aquele nada, era você explodindo de ciúmes. Eu nunca deveria ter largado sua mão para segurar o copo de bebida, nunca. Eu não quero que me desculpe, eu não mereço. Eu só vim aqui ver se você tava com alguém porque eu quero dar um soco na cara dele. Ta vendo? Eu sendo ridículo de novo. Mas eu não consegui ver você segurar a mão de outro cara. Você apertou a mão dele igual apertava a minha? Mordeu a mão dele? Diz pra mim que você não montou nas costas dele e tampou os olhos, para brincar de cavalinho. Diz pra mim que ele ta te fazendo sorrir. Diz. Só me diz se ele te faz feliz. Olha, se você não me ama mais, tudo bem, pode pegar a vassoura e me expulsar da sua casa. Mas se você ainda lembra do dia que eu te joguei um travesseiro na cabeça, você me tacou o controle da tv porque mudei de canal, logo em seguida eu tirei nossas alianças do bolso, te pedi em namoro e você falou que não queria ser minha namorada e sim minha esposa, então por favor, se você lembra desse dia, se você lembra da sua blusa rosa suja de brigadeiro e seu bico de brava porque eu falei que a dançarina do Faustão era bonita, sorri pra mim, pela última vez, sorri pra mim. Eu juro que te esqueço, que não te pertubo mais e paro de mandar sms em todas as horas iguais, mas sorri pra mim. Deixa eu, pelo menos essa noite, dormir feliz por ter visto você sorrir. Eu vou embora… E me desculpe, eu não mereço nem seu sorriso. Ela: Eu senti sua falta, mesmo você não merecendo nem minha raiva."
"Sempre acordei no mesmo horário, todos os dias. O despertador toca 06:20 a.m. e eu levanto às 06:29 a.m.. Tomo meu banho, pego a primeira roupa que vejo no guarda roupa e saio para tomar café da manhã na padaria da esquina. Odeio café da manhã, só vou até lá porque a menina que trabalha no caixa é a mais gostosa do bairro. Ando 300 metros até o ponto de ônibus e costumo esperar uns 5 minutos até o ônibus chegar. O ônibus não vai cheio nem vazio, sei lá, sempre tem lugar para eu ir sentado. Chego no trabalho perto das 07:37 a.m., ‘7 minutos atrasado’, é o que minha chefe sempre fala. Mas se eu fosse chegar no horário certo, teria que acordar no mínimo uns 15 minutos mais cedo, a padaria estaria fechada, o que significa que eu não poderia ver a gostosa e o ônibus estaria lotado. Óbvio que eu opto por ouvir todos os dias que estou 7 minutos atrasado. Faço o que tenho que fazer o mais rápido possível e depois fico o resto da manhã jogando paciência no computador. Dei sorte de pegar esse emprego de meio período. Volto na padaria para ver se a gostosa ainda está ali, normalmente sim, mas não entro, aprecio apenas pelo lado de fora, olhando pelo vidro e volto para casa. Como o que tiver na geladeira, durmo, acordo, vejo televisão, tomo outro banho, vejo mais televisão, como e vou dormir de novo. Aí tudo recomeça. Despertador tocou 06:20 a.m., acordei 06:29 a.m., tomei meu banho, peguei a primeira roupa, fui até a gostosa da padaria, caminhei até o ponto de ônibus, esperei 5 minutos… Tudo como sempre, tudo normal. Exceto a ruiva sentada do lado da janela na terceira fila no ônibus. Ela olhou para mim e sorriu. Mas ela não sorriu com o lábio, ela sorriu com os olhos. Porra. Porra, porra, porra. Por quê? Ok, continua a rotina normalmente, ela é só uma estranha que apareceu no ônibus hoje. Mas não tinha como continuar a rotina normalmente. Primeiro porque aquele cabelo cor de céu de outono no pôr-do-sol estava chamando muito a minha atenção, segundo porque o ônibus estava lotado, terceiro porque o único lugar vago era ao lado dela. Sentei e achei um ponto fixo, olhando para frente. Comecei a ler o anúncio, que eu já sabia de cor, colado perto do motorista. Quando eu estava lendo pela trigésima terceira vez, ela me pediu licença. Que voz linda, puta que pariu. Doce, sabe? Suave, calma. PORRA, POR QUE EU ESTAVA REPARANDO NA VOZ DA MENINA? Fazia tempo que isso não acontecia. E isso não era um bom sinal. ‘Licença’ ela repetiu. Me dei conta que eu também tinha que descer no próximo ponto. Pedi desculpa, deixei ela passar e levantei logo atrás para descer também. Se a caixa da padaria era gostosa, a menina do cabelo cor de céu de outono no pôr-do-sol era gostosa pra caralho. Pra caralho. Não pude evitar, precisei ver para onde ela ia. Felizmente ela foi na mesma direção que eu precisava ir. Ela passou reto pelo lugar que eu deveria ter entrado, continuou mais uns 200 metros e entrou na farmácia. Por isso que ela estava toda de branco. Explicado. Legal, ela trabalhava perto de mim. Isso significa que nós nos encontraríamos todos os dias no ônibus, se ela fosse para o trabalho de ônibus que nem eu. Por um segundo desejei que sim, depois me perguntei o que eu estava fazendo, dei meia volta e fui em direção ao trabalho. ‘Doze minutos atrasado’ foi o que eu ouvi dessa vez. Juro que eu tentei fazer as coisas rápido como sempre, mas essa menina não saia dos meus pensamentos. Eu começava a fazer uma coisa e quando eu me dava conta, já tinha parado de fazer a coisa para pensar nela. PORRA, O QUE ESTAVA ACONTECENDO COMIGO? Não tive tempo de jogar paciência. Saí do trabalho irritado, esqueci de ir na padaria checar se a gostosa (agora nem mais tão gostosa assim) ainda estava lá, não almocei, tentei dormir mas também não deu certo porque eu estava ansioso, querendo que chegasse o dia seguinte para poder rever aquele sorriso com os olhos da menina do cabelo cor de céu de outono no pôr-do-sol. Liguei a televisão para tentar espairecer um pouco e deu certo, peguei no sono. Acordei às 5 da manhã com o cara do filme berrando e com uma puta dor nas costas porque eu tinha dormido no sofá. Como eu tinha certeza que eu não dormiria novamente e, se eu dormisse, não acordaria em uma hora e meia, resolvi tomar banho. Demorei mais tempo que o normal, e não foi porque eu estava uma hora adiantado. Não peguei a primeira roupa do guarda roupa, escolhi uma como se eu fosse para algum evento importante. Mas na minha cabeça, eu ia mesmo, encontrar a ruiva sentada do lado da janela na terceira fila no ônibus. Passei até perfume. 06:33 a.m. eu já estava pronto e não sabia mais o que fazer. Não podia sair mais cedo porque senão eu não ia pegar o mesmo ônibus que ela, não ia na padaria porque eu não tinha mais motivo para tomar café da manhã, mas eu não aguentava mais ficar em casa. Saí. Fui bem devagar, contei os passos da minha casa até o ponto. Exatos 729 passos. Sentei no ponto e esperei mais do que 5 minutos. Esperei eternos 19 minutos até que finalmente o ônibus chegou. ‘Tomara que ela esteja lá, tomara que ela esteja lá, tomara que ela esteja lá’ pensei ao subir os degraus. ELA ESTAVA LÁ!!!!!!!! Acho que eu até sorri para o motorista e dei bom dia ao cobrador. O banco ao lado dela estava vazio e, óbvio, não pensei duas vezes e fui até lá. A última vez que eu tinha ficado afim de alguém tinha sido na sétima série, eu não lembrava mais como fazia essas coisas, como chegava em uma menina, se tinha que ser meigo (coisa que eu não sabia fazer) ou se tinha que chegar chegando. PORRA. Eu não fazia a mínima ideia. Não deu tempo de chegar em uma conclusão, o ponto tinha chegado. Descemos, parei no trabalho e ela continuou até a farmácia. Foi a semana inteira assim, eu não parando de pensar nela, o dia passando devagar, eu querendo chegar nela de algum jeito e não sabendo qual, ela sorrindo com os olhos todos os dias, eu observando ela caminhar até a farmácia para depois entrar no meu trabalho, eu sorrindo para desconhecidos, escolhendo minha roupa, demorando no banho, passando perfume, não indo mais até a padaria, vendo coisas românticas na televisão. O final de semana foi insuportável. Acordei no horário do trabalho desejando que o fato de eu não poder vê-la hoje fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo. Mas não, era sábado mesmo. Saí para caminhar, fiz o trajeto do ônibus para ver se eu a encontrava em algum lugar, mas nada. Sei lá porque eu pensei que isso seria possível, mas enfim. Passei na locadora e peguei uma quantidade de filmes suficiente para que meu sábado e meu domingo ficassem lotados e eu não tivesse tempo de pensar nela. Operação sem sucesso. Finalmente chegou segunda-feira. Pulei da cama. Acordei sem despertador, inclusive. Tomei banho, coloquei a roupa, passei perfume e fui até o ponto. Meu coração começou a bater mais forte quando o ônibus estava se aproximando. PORRA CORAÇÃO, NÃO FAZ ISSO COMIGO. Aí eu vi. Ela sentadinha, como sempre, na terceira fila do ônibus, do lado da janela e um espaço vago ao seu lado. Sentei. Pela terceira vez repassei toda a conversa que eu tinha planejado ao longo do final de semana, respirei fundo e arrisquei: - Oi, meu nome é Eduardo - tenho certeza que minhas bochechas ficaram mais vermelhas que o cabelo cor de céu de outono no pôr-do-sol dela. - Oi, meu nome é Brenda - e ela sorriu. Mas dessa vez, não apenas com os olhos. Eu não sabia nada sobre as mulheres, mas achei isso um bom sinal."
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Coca-cola, formigas atômicas e combo de pipoca.
Tava na fila do cinema quando vi um cara com blusa das formigas atômicas acenar pra mim. Olhei duas, três, cinco mil vezes pra ver se eu não tava delirando. Ele vinha na minha direção com os braços abertos e eu calculei a distância entre o elevador mais próximo e eu. Não dava tempo de correr. Também não dava tempo de cavar um buraco no piso do shopping e pular dentro.
― Ei, preta. ― Ele me deu um abraço estranho de uma só mão e eu meio que abracei a outra mão dele e… hãm, foi um desastre. Mas meu coração doeu quando eu ouvi essa voz e esse apelidinho que anos atrás, eram suficientes pra deixar meu dia mais feliz.
― O…hei… ã. ― Eu queria dizer “Hey, oi, e aí?”. Mas não conseguia pronunciar direito.
― Quanto tempo né.
― Pois é… ― Balancei a cabeça.
― É… e aí?
― Tudo nice.
― Então… anos, né?
― Pois é. Três ou quatro.
― Acho que é quatro.
Três anos, nove meses e quatro dias, querido.
― É…
― Arram…
― Pois é.
Passamos algum tempo nos olhando constrangedoramente. Lembrei do tempo que nós tínhamos assunto. Era natural como respirar. Passávamos umas boas três, quatro horas no telefone. O assunto nunca acabava e o silêncio também não era um incômodo, nós meio que nos entendíamos. E olha só pra gente agora. Procurei na minha cabeça algum assunto que poderia falar com ele, mas não vinha nada. Estava quase correndo pra longe quando…
― Uma amiga minha te viu um dia desses.
Meses e meses atrás, corrigi mentalmente.
― Dalila?
― Não, não. Você não conhece.
― Então como ela sabe quem sou eu?
Ok. Já posso correr. Deveria dizer “não, é que assim, você é meio que o cara que eu mais amei na vida e meio que eu ainda falo de você pra Deus e o mundo”? Não né.
― Quis dizer que você não deve se lembrar dela, enfim, esquece.
― E esse suco aí na tua mão?
Olhei pra baixo e notei realmente que eu estava segurando um copo de suco de laranja. Alguém, que eu não me lembrava agora quem era, tinha ido comprar pipoca pra gente também, eu acho.
― É um suco.
― Tá brincando que é um suco? ― Ele ironizou. ― Tô querendo saber, é, cadê tua coca cola?
― Ah, sim, sim. Não tomo mais, sabe. ― Era minha deixa. Ensaiei falar isso faz anos. ― Mudei muito.
― Tu? Mudou? Tu? Parou de tomar coca? Ta beleza, eu acredito.
― Não ta vendo o suco na minha mão? Parei de tomar coca.
― Não parou não.
― Parei. ― Queria jogar o suco na cara dele ― Isso aqui é suco.
― Mas continua querendo tomar coca.
― Isso não significa nada.
― Claro que significa. ― Ele sorriu ― Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda. Tu sempre vai desejar uma coca gelada que rasga a garganta. Pega logo uma coca.
Verdade. Quase pude sentir o gosto enquanto ele dizia isso. Como eu queria coca-cola. Quase dois anos que eu não tomo e eu nunca deixei de querer tomar.
Mas enfim, o que tem haver?
― Que bom que só querer não dá celulite né? ― Sorri.
― Você seria linda de qualquer forma. Com ou sem celulite. ― Ele falou em um tom mais baixo e mais intenso, e eu tive um ataque cardíaco, pelo menos era o que eu sentia. Olhei pros lados disfarçando a timidez.
― E os caras? ― Ele perguntou quando teve a certeza de que eu não iria mais responder.
― Que caras?
― Os caras, né.
― Hãm?
― Namorados, preta, namorados, problemas, paqueras, etc.
Ah sim. Isso me lembrou que tinha alguém comprando pipoca em algum lugar desse shopping. Olhei de relance pra ver se encontrava, mas aparentemente não estava em nenhum canto. Ou era culpa minha, que só conseguia ver o cara de camisa das formigas atômicas na minha frente.
― Tô namorando.
― Você? ― Ele levantou a sobrancelha.
Me senti um pouco ofendida com o tom de voz dele. ― Eu mesma.
Ele me fitou por algum tempo em silêncio.
― O que? ― Já tava sem paciência.
― É… ― ele pensou por mais alguns segundos ― Estranho, eu acho.
E eu entendi o que ele quis dizer. A gente só se conhecia como um sendo a pessoa do outro. Nós éramos o amor da vida um do outro, a alma gêmea, a metade da laranja e qualquer outro nome que dão pra isso. Era algo fora do contexto esse nosso encontro, a gente aqui, como dois conhecidos que não se vêem há anos. Como que a gente foi se perder assim? Como que nossas vidas que pareciam tão juntas e tão entrelaçadas e tão grudadas, inventaram de mudar de rumo? Eu me sentia até culpada, eu acho. Era tudo bonito demais e triste demais e apaixonado demais pra ter acabado.
― É.
― Ainda escreve?
(Escrevo. Tô escrevendo um texto sobre você nesse instante.)
― Não ― Menti. ― Não tenho mais tempo pra isso.
― Hum… Então você mudou.
― Mudei muito.
― Mentira sua ― Ele me olhou como uma criança implicante.
― Acredite no que quiser ― Retribui o olhar.
― Aposto que ainda conta os dias e as datas.
― Não mesmo. Nem me lembrava mais disso. Aliás, que dia é hoje?
― Quanto tempo pro teu aniversário?
― Que?
― Quanto tempo falta. Para o teu. Aniversário. ― Ele falou pausadamente.
Engoli seco. ― Eu sei lá.
― Eu sei que você tá contando.
― O que? Eu mesm…
― Anda.
― Não sei.
― Diz.
― Não dig…
― Agora.
O encarei por alguns segundos até suspirar pesadamente.
― Três meses e quatro dias.
― Aniversário da tua cachorra.
― Sete meses e… seis dias. 12 de dezembro. Aniversário de Belo Horizonte. Dia da morte do José de Alencar. Aniversário do Silvio Santos também.
― Viu, eu disse.
― Grande coisa. Todo mundo tem uma mania.
― Grande coisa. Você não mudou nada.
― Cortei o cabelo.
― Não mudou a cor.
― Não assisto mais novela.
― Continua achando que a vida é uma novela mexicana.
― Não como mais miojo.
― Ainda odeia usar garfo pra cortar a carne.
― Tá. Tá. Eu entendi. Não mudei. Você venceu. Agora, pra quê tudo isso?
― Pra me certificar.
― De que?
Ele olhou pro lado e suspirou. ― De nada. De nada. Ei… tem um cara parado ali feito um bobo, acho que ele ta procurando alguém.
Segui o seu olhar e avistei um cara com um combo de pipoca na mão.
De alguma forma ele sabia quem esse cara é. Estranho.
― É meu namorado. Eu… eu tenho que…
― Tem que ir. ― Ele balançou a cabeça positivamente.
Droga. Porque é tão difícil ir embora?
― Então, até um dia.
― Até ― Ele pegou minha mão e deu um beijo, então deu um meio sorriso e foi se afastando.
Mordi o lábio enquanto o vi partindo ― já o vira partir tantas outras vezes. A gente nunca acha que um dia vai acabar. A gente sempre acha que vai ter mais, algum dia, alguma vez. Até que acaba. Até que o máximo de proximidade entre vocês seja apenas encontrar um ao outro na fila de um cinema. E não há nada mais triste que isso de seguir em frente. Não há nada pior do que desvencilhar sua vida da de outra pessoa. E mesmo com tudo, é como se não existisse realmente um fim, mesmo depois de ter tido um fim…
― Espera!
Ele se virou pra mim com surpresa em seus olhos ― O que?
― Você!
― Eu…
― Você é minha coca-cola.
― Eu sou o quê?
― Minha coca-cola. ― Ele vinha se aproximando e eu fechei os olhos, tentando me lembrar das palavras dele anteriormente. ― “Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda.”
― E o que isso significa?
― Você sempre vai estar aqui, mesmo não estando.
Ele deu um sorriso triste, e pelo seus olhos, vi que o meu também era. Ele colocou uma mecha do meu cabelo para de trás da minha orelha e suspirou.
― Você sempre vai ser a minha coca-cola, também.
― Até mais então.
― Até um dia, preta.
Cada um seguiu em frente novamente ― e literalmente. Fui encontrar o cara com o combo de pipoca, mas não pude deixar de olhar pra trás e ver, por mais uma ― e talvez última ― vez, o cara com a camisa das formigas atômicas.
Acho que vou tomar coca-cola hoje. (Iolanda Valentim)
"Ele: Ontem eu te vi de mãos dadas com outro cara. Ele era.. da hora. Mas ele segurava nas suas mãos de maneira errada e ele te deixou andar do lado de fora da calçada. Olha, eu sei que terminei com você falando que queria curtir. E curti, curti muita fossa, muito choro e muita gente falando que eu era idiota. Eu podia ter feito você tão feliz. Eu deveria ter sujado sua boca com o sorvete, eu deveria ter pego você no colo e te jogado na areia da praia. Lembra quando você cortou o cabelo e eu não falei nada? Eu deveria ter falado que aquele corte te deixou mais linda, que quando o vento batia nos seus cabelos e você olhava para baixo eu tinha certeza de que queria ficar com você pra sempre. Eu não to mentindo, tentei por vezes criar coragem e vir até aqui. Me chama, vai, me chama de burro. Me chama de burro por não ter visto que seu sorriso era o mais lindo do mundo, por não ter visto a curva dos seus cílios quase tocando nas suas sobrancelhas. Me bate, vai. Me bate por ter feito você chorar. Vai, me bate. Por favor. Me faz lembrar que você adorava chocolate branco e eu só te comprava preto. Briga comigo por eu nunca ter usado a camiseta que você me deu, briga. Eu deveria ter segurado sua mão com força. Eu deveria ter beijado sua testa enquanto podia. Eu deveria ter aberto a porta do carro pra você. Todas as tardes que eu joguei videogame, eu deveria ter deixado tudo de lado e ter ido te ver sorrir. Aquele seu vestido azul, você sempre usava porque combinava com a cor dos meus olhos não é? E eu nunca percebi. Eu nunca percebi o jeito que você mexia os dedos um de cada vez e que aquele nada, era você explodindo de ciúmes. Eu nunca deveria ter largado sua mão para segurar o copo de bebida, nunca. Eu não quero que me desculpe, eu não mereço. Eu só vim aqui ver se você tava com alguém porque eu quero dar um soco na cara dele. Ta vendo? Eu sendo ridículo de novo. Mas eu não consegui ver você segurar a mão de outro cara. Você apertou a mão dele igual apertava a minha? Mordeu a mão dele? Diz pra mim que você não montou nas costas dele e tampou os olhos, para brincar de cavalinho. Diz pra mim que ele ta te fazendo sorrir. Diz. Só me diz se ele te faz feliz. Olha, se você não me ama mais, tudo bem, pode pegar a vassoura e me expulsar da sua casa. Mas se você ainda lembra do dia que eu te joguei um travesseiro na cabeça, você me tacou o controle da tv porque mudei de canal, logo em seguida eu tirei nossas alianças do bolso, te pedi em namoro e você falou que não queria ser minha namorada e sim minha esposa, então por favor, se você lembra desse dia, se você lembra da sua blusa rosa suja de brigadeiro e seu bico de brava porque eu falei que a dançarina do Faustão era bonita, sorri pra mim, pela última vez, sorri pra mim. Eu juro que te esqueço, que não te pertubo mais e paro de mandar sms em todas as horas iguais, mas sorri pra mim. Deixa eu, pelo menos essa noite, dormir feliz por ter visto você sorrir. Eu vou embora… E me desculpe, eu não mereço nem seu sorriso. Ela: Eu senti sua falta, mesmo você não merecendo nem minha raiva."
"Sempre acordei no mesmo horário, todos os dias. O despertador toca 06:20 a.m. e eu levanto às 06:29 a.m.. Tomo meu banho, pego a primeira roupa que vejo no guarda roupa e saio para tomar café da manhã na padaria da esquina. Odeio café da manhã, só vou até lá porque a menina que trabalha no caixa é a mais gostosa do bairro. Ando 300 metros até o ponto de ônibus e costumo esperar uns 5 minutos até o ônibus chegar. O ônibus não vai cheio nem vazio, sei lá, sempre tem lugar para eu ir sentado. Chego no trabalho perto das 07:37 a.m., ‘7 minutos atrasado’, é o que minha chefe sempre fala. Mas se eu fosse chegar no horário certo, teria que acordar no mínimo uns 15 minutos mais cedo, a padaria estaria fechada, o que significa que eu não poderia ver a gostosa e o ônibus estaria lotado. Óbvio que eu opto por ouvir todos os dias que estou 7 minutos atrasado. Faço o que tenho que fazer o mais rápido possível e depois fico o resto da manhã jogando paciência no computador. Dei sorte de pegar esse emprego de meio período. Volto na padaria para ver se a gostosa ainda está ali, normalmente sim, mas não entro, aprecio apenas pelo lado de fora, olhando pelo vidro e volto para casa. Como o que tiver na geladeira, durmo, acordo, vejo televisão, tomo outro banho, vejo mais televisão, como e vou dormir de novo. Aí tudo recomeça. Despertador tocou 06:20 a.m., acordei 06:29 a.m., tomei meu banho, peguei a primeira roupa, fui até a gostosa da padaria, caminhei até o ponto de ônibus, esperei 5 minutos… Tudo como sempre, tudo normal. Exceto a ruiva sentada do lado da janela na terceira fila no ônibus. Ela olhou para mim e sorriu. Mas ela não sorriu com o lábio, ela sorriu com os olhos. Porra. Porra, porra, porra. Por quê? Ok, continua a rotina normalmente, ela é só uma estranha que apareceu no ônibus hoje. Mas não tinha como continuar a rotina normalmente. Primeiro porque aquele cabelo cor de céu de outono no pôr-do-sol estava chamando muito a minha atenção, segundo porque o ônibus estava lotado, terceiro porque o único lugar vago era ao lado dela. Sentei e achei um ponto fixo, olhando para frente. Comecei a ler o anúncio, que eu já sabia de cor, colado perto do motorista. Quando eu estava lendo pela trigésima terceira vez, ela me pediu licença. Que voz linda, puta que pariu. Doce, sabe? Suave, calma. PORRA, POR QUE EU ESTAVA REPARANDO NA VOZ DA MENINA? Fazia tempo que isso não acontecia. E isso não era um bom sinal. ‘Licença’ ela repetiu. Me dei conta que eu também tinha que descer no próximo ponto. Pedi desculpa, deixei ela passar e levantei logo atrás para descer também. Se a caixa da padaria era gostosa, a menina do cabelo cor de céu de outono no pôr-do-sol era gostosa pra caralho. Pra caralho. Não pude evitar, precisei ver para onde ela ia. Felizmente ela foi na mesma direção que eu precisava ir. Ela passou reto pelo lugar que eu deveria ter entrado, continuou mais uns 200 metros e entrou na farmácia. Por isso que ela estava toda de branco. Explicado. Legal, ela trabalhava perto de mim. Isso significa que nós nos encontraríamos todos os dias no ônibus, se ela fosse para o trabalho de ônibus que nem eu. Por um segundo desejei que sim, depois me perguntei o que eu estava fazendo, dei meia volta e fui em direção ao trabalho. ‘Doze minutos atrasado’ foi o que eu ouvi dessa vez. Juro que eu tentei fazer as coisas rápido como sempre, mas essa menina não saia dos meus pensamentos. Eu começava a fazer uma coisa e quando eu me dava conta, já tinha parado de fazer a coisa para pensar nela. PORRA, O QUE ESTAVA ACONTECENDO COMIGO? Não tive tempo de jogar paciência. Saí do trabalho irritado, esqueci de ir na padaria checar se a gostosa (agora nem mais tão gostosa assim) ainda estava lá, não almocei, tentei dormir mas também não deu certo porque eu estava ansioso, querendo que chegasse o dia seguinte para poder rever aquele sorriso com os olhos da menina do cabelo cor de céu de outono no pôr-do-sol. Liguei a televisão para tentar espairecer um pouco e deu certo, peguei no sono. Acordei às 5 da manhã com o cara do filme berrando e com uma puta dor nas costas porque eu tinha dormido no sofá. Como eu tinha certeza que eu não dormiria novamente e, se eu dormisse, não acordaria em uma hora e meia, resolvi tomar banho. Demorei mais tempo que o normal, e não foi porque eu estava uma hora adiantado. Não peguei a primeira roupa do guarda roupa, escolhi uma como se eu fosse para algum evento importante. Mas na minha cabeça, eu ia mesmo, encontrar a ruiva sentada do lado da janela na terceira fila no ônibus. Passei até perfume. 06:33 a.m. eu já estava pronto e não sabia mais o que fazer. Não podia sair mais cedo porque senão eu não ia pegar o mesmo ônibus que ela, não ia na padaria porque eu não tinha mais motivo para tomar café da manhã, mas eu não aguentava mais ficar em casa. Saí. Fui bem devagar, contei os passos da minha casa até o ponto. Exatos 729 passos. Sentei no ponto e esperei mais do que 5 minutos. Esperei eternos 19 minutos até que finalmente o ônibus chegou. ‘Tomara que ela esteja lá, tomara que ela esteja lá, tomara que ela esteja lá’ pensei ao subir os degraus. ELA ESTAVA LÁ!!!!!!!! Acho que eu até sorri para o motorista e dei bom dia ao cobrador. O banco ao lado dela estava vazio e, óbvio, não pensei duas vezes e fui até lá. A última vez que eu tinha ficado afim de alguém tinha sido na sétima série, eu não lembrava mais como fazia essas coisas, como chegava em uma menina, se tinha que ser meigo (coisa que eu não sabia fazer) ou se tinha que chegar chegando. PORRA. Eu não fazia a mínima ideia. Não deu tempo de chegar em uma conclusão, o ponto tinha chegado. Descemos, parei no trabalho e ela continuou até a farmácia. Foi a semana inteira assim, eu não parando de pensar nela, o dia passando devagar, eu querendo chegar nela de algum jeito e não sabendo qual, ela sorrindo com os olhos todos os dias, eu observando ela caminhar até a farmácia para depois entrar no meu trabalho, eu sorrindo para desconhecidos, escolhendo minha roupa, demorando no banho, passando perfume, não indo mais até a padaria, vendo coisas românticas na televisão. O final de semana foi insuportável. Acordei no horário do trabalho desejando que o fato de eu não poder vê-la hoje fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo. Mas não, era sábado mesmo. Saí para caminhar, fiz o trajeto do ônibus para ver se eu a encontrava em algum lugar, mas nada. Sei lá porque eu pensei que isso seria possível, mas enfim. Passei na locadora e peguei uma quantidade de filmes suficiente para que meu sábado e meu domingo ficassem lotados e eu não tivesse tempo de pensar nela. Operação sem sucesso. Finalmente chegou segunda-feira. Pulei da cama. Acordei sem despertador, inclusive. Tomei banho, coloquei a roupa, passei perfume e fui até o ponto. Meu coração começou a bater mais forte quando o ônibus estava se aproximando. PORRA CORAÇÃO, NÃO FAZ ISSO COMIGO. Aí eu vi. Ela sentadinha, como sempre, na terceira fila do ônibus, do lado da janela e um espaço vago ao seu lado. Sentei. Pela terceira vez repassei toda a conversa que eu tinha planejado ao longo do final de semana, respirei fundo e arrisquei: - Oi, meu nome é Eduardo - tenho certeza que minhas bochechas ficaram mais vermelhas que o cabelo cor de céu de outono no pôr-do-sol dela. - Oi, meu nome é Brenda - e ela sorriu. Mas dessa vez, não apenas com os olhos. Eu não sabia nada sobre as mulheres, mas achei isso um bom sinal."
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